GOLEADA E SEMIFINAL
Depois da boa vitória por 2 X 0 no Brinco, o pensamento da torcida bugrina voltou-se para a organização da viagem ao Rio de Janeiro, onde sem dúvida o Guarani viveria o seu momento mais importante até então, no jogo da volta das semifinais marcado para o dia 6 de agosto de 1978, um domingo.
A imprensa carioca minimizou a derrota do Vasco em Campinas, justificando-a com os desfalques de Roberto Dinamite e Guina, além de dizer que no Rio a coisa ia ser diferente, que o Vasco era tecnicamente muito superior ao Guarani..., que o Guarani ia para o Maracanã praticar o antijogo, etc.
Eis uma amostra do que publicou o "Jornal dos Sports" nos dias que antecederam a partida:
"Roberto (Dinamite) garante dois gols: Deixa comigo!"
"Vascão já avisou. Não aceita o antijogo".
"Guarani viria com tudo preparado para aplicar recursos próprios para truncar as jogadas, retardar as reposições de bola e fabricar aquela espécie de ações que os torcedores chamam cera."
"...o time vascaíno completo está muitos furos acima do Guarani. Numa partida cheia de paralisações a equipe mais técnica é sempre a mais prejudicada."
Mas a catimba do Guarani resumiu-se em tentar despistar a escalação do time. Divulgou-se que Silveira, Alexandre, Mauro, Miranda, Bozó, Careca e Renato não poderiam jogar por estarem contundidos, além de Edson que deveria cumprir suspensão automática pela expulsão no primeiro jogo. Mas só Silveira, o substituto natural de Edson, estava realmente contundido. Carlos Alberto Silva deslocou então o lateral Mauro para o miolo da zaga e entrou Alexandre na lateral. Nas demais posições o time estava completo.
Temia-se muito a influência da arbitragem, visto ser o Vasco o time do coração do presidente da CBD (Confederação Brasileira de Futebol), Almirante Heleno Nunes. Temia-se também pelo tabu de o Bugre nunca ter vencido no Maracanã. Até então tinham sido 8 jogos, com 7 derrotas e 1 empate. Mas nenhuma das derrotas tinha sido para o Vasco, que já tinha sido batido pelo Bugre em São Januário.
A torcida estava muito otimista, e lotou nada menos do que 60 ônibus para ir ver o jogo. Três mil bugrinos foram ao Maracanã vibrar com o Bugrão, o que não era quase nada diante dos mais de cem mil vascaínos presentes. Certamente havia mais de 120 mil pessoas no Maracanã, pois é sabido que o número de não pagantes em jogos nesse estádio chega a alcançar 25 a 30% do número de pagantes. Mas a torcida do Vasco só fez barulho quando o time entrou em campo. Quando a bola rolou, só deu Guarani, e aos cem mil não restou outra coisa senão assistir calados. A festa foi toda dos bugrinos. Logo aos 8 min. o Guarani avançou trocando passes, Careca tocou de lado mansamente para o vazio e Zenon veio de trás e acertou uma bomba que Mazzaropi nem viu: 1 X 0 e explosão dos bugrinos. Agora o Vasco teria que fazer 3! Logo depois os alto-falantes do estádio anunciavam Internacional 1 X 1 Palmeiras, jogo encerrado e Palmeiras classificado para a final (esse jogo havia se iniciado às 15:30 h). A torcida bugrina comemorou, pois contra a equipe paulista o Guarani jogaria com vantagem de dois resultados iguais e faria a segunda partida em casa, o que não aconteceria se o adversário fosse o Inter. Além disso, seria muito mais fácil se locomover até S. Paulo do que até Porto Alegre. No campo o Guarani continuava dominando as ações. Segundo tempo, falta na entrada da área, Zenon colocou lá dentro, como se tivesse jogado com as mãos: 2 X 0. A torcida adversária começou a ir embora, enquanto que a torcida bugrina delirava. No final o Vasco ainda descontou, mas não havia tempo para mais nada. O gol do Vasco só serviu para quebrar uma longa invencibilidade do goleiro Neneca, que desde o jogo contra o Santos não sofria gol. Foram 778 minutos sem sofrer gols.
O Guarani estava na final e na Taça Libertadores da América! A festa continuou na arquibancada até o último bugrino descer para os vestiários. Todos tiveram seus nomes gritados pelos torcedores, especialmente o técnico Carlos Alberto Silva. Agora sim, a palavra "título", que até então não se ousava pronunciar, parecia uma realidade quase certa. Depois dessa vitória, nenhum torcedor bugrino acreditava que o título escaparia das mãos do Bugre.
Vale a pena destacar a matéria do jornal "A Gazeta Esportiva" de 07/08/78 sobre a partida:
"GUARANI NAS FINAIS"
"Quem tem Zenon não tem medo de nenhuma coação"
"Os que acreditavam na tradição, na força da camisa do Vasco contra o Guarani saíram do Maracanã frustrados. O Guarani não tomou conhecimento da tradição vascaína. Ao contrário, o Guarani foi sempre o time que impôs o ritmo e ditou as normas do jogo. Começou a ganhá-lo a partir do meio campo onde Zenon e Zé Carlos não tiveram a mínima dificuldade para vencer Helinho, Zanata e o complicado Dirceu que continua correndo muito mas sem produzir o futebol necessário, aquele futebol que a torcida esperava."
"Jogando futebol"
"O Guarani poderia perder por até um a zero, mas não se valeu disso. Entrou em campo disposto a jogar futebol e ganhar do Vasco da Gama. Portanto, a vitória ao final dos noventa minutos não foi uma novidade. O Vasco tentou afogar o Guarani no início da partida, procurando com isso ficar de posse da bola o maior tempo possível e tentar o gol de abertura que enervaria o adversário. Mas o Guarani não entrou no jogo do Vasco. O Guarani soube manter a distância necessária e foi o Vasco da Gama quem começou a se enervar porque o tempo passava e os gols não saíam. Aos cinco minutos, Capitão fez uma jogada pelo setor esquerdo e foi se derivando para o meio quando chutou perigosamente, por cima do gol de Mazaropi. Estava esboçada aí a competência do time paulista contra o Vasco da Gama e a própria torcida local começava a perceber que o Guarani abriria a contagem a qualquer momento.
O gol de abertura do Guarani acabou acontecendo aos oito minutos do primeiro tempo. Zenon recebeu a bola de Careca. Recebeu na medida como se fosse uma cobrança de falta pois foi Careca quem fez tudo driblando a torcida adversária. Zenon veio de trás e chutou forte. Acertou no ângulo com o goleio Mazaropi fora do gol, esperando que ela saisse pela linha de fundo."
"Momentos do Vasco"
"Depois do gol, o Vasco da Gama teve dez minutos de futebol bem trabalhado quendo Dirceu saiu do meio campo onde era sistematicamente marcado por Zé Carlos e foi jogar ao lado de Paulinho, na esquerda. Paulinho e Dirceu contra apenas Alexandre, fizeram o Vasco crescer e criar algumas jogadas de perigo. Porém, depois de dez minutos o técnico Carlos Alberto percebeu a falha de seu time e pediu a Capitão para recuar e fechar o setor. Aí o Guarani voltou a mandar no jogo dominando completamente a seu adversário.
Na verdade, todas as ações do Guarani vinham do meio campo onde Zé Carlos, além de marcar com muita segurança, ajudava seu ataque com lançamentos precisos e Zenon, muito habilidoso e exímio cobrador de faltas."
"Mais à frente"
"O Vasco da Gama voltou na etapa final com Wilsinho no posto de Zanata. A idéia do treinador Orlando Fantoni era certa, pois Zanata havia produzido mal na primeira etapa tanto no aspecto de marcação como no de ajuda a seu ataque. Com Wilsinho na esquerda, Paulinho foi jogar no meio campo e Wilsinho manteve-se aberto pelo setor impedindo que o lateral do Guarani pudesse descer em auxílio a seu ataque.
Taticamente o comportamento do Vasco da Gama era o correto e não se justificavam as críticas e as vaias da torcida, pois o time vascaíno se esforçava em campo. Lutava tentando conseguir o gol, mas tinha pela frente uma equipe que - no plano tático - era realmente muito melhor.
Por causa disso, o Guarani não se abateu com o Vasco um pouco mais agressivo. A marcação sobre Paulinho e também sobre Roberto, o centro avante, continuou sendo sistemática. Evidentemente, o esquema da Copa ajudava o Guarani que tinha no Vasco um adversário que poderia se classificar apenas se fizesse três gols e isso dava ao time de Campinas uma grande tranqüilidade."
"Outra vez Zenon"
"A defesa do Vasco da Gama, cada vez mais nervosa, encontra inúmeras dificuldades para segurar o ataque do Guarani e, uma das alternativas era cometer faltas.
As faltas foram se avolumando nas proximidades da área do goleiro Mazaropi até que aos 22 minutos, Zenon teve uma na medida para chutar. Até mesmo antes da cobrança acreditava-se no gol. Não deu outra. Zenon chutou certo, no ângulo direito do gol de Mazaropi e fez dois a zero. Estava garantida a classificação e configurada a excelente vitória do Guarani que irá agora fazer a finalíssima da Copa Brasil 78 com o Palmeiras - outro representante do futebol de São Paulo."
"Na brincadeira, o gol do Vasco"
"Aos 36 minutos, o Vasco da Gama diminuiu e definiu o marcador. Foi um chute forte da entrada da área, motivado muito mais pela brincadeira e os exageros de toques da defesa do Guarani do que por méritos do próprio time do Vasco da Gama. Macedo, que entrara no lugar de Bozó, acabou entregando a bola para Dirceu chutar livre e o gol saiu.
Esse gol parece que fez com que os jogadores do Guarani voltassem a levar a partida a sério. Daí até o final, o Guarani deu um verdadeiro show tocando a bola no meio campo e fazendo o tempo passar para desespero do time adversário. O resultado, enfim, foi muito justo e o Guarani provou que é uma das melhores, senão a melhor equipe dessa Copa Brasil, merecendo inclusive a conquista do título. O Guarani anulou qualquer possibilidade do Vasco da Gama desde o primeiro minuto e a tendência desse time é subir ainda mais, justificando sua presença até na Taça Libertadores."
Vale a pena destacar também o que escreveu Luiz Augusto Chabassus na revista Placar no. 433, pág. 7:
"DIRCEU ESNOBOU E LEVOU UM BAILE DO CAIPIRA ZENON"
"Com um gol em cada tempo, o meia armador do Guarani humilhou os medalhões do Vasco."
"Antes do jogo, ao ser entrevistado se iria marcar Zenon por todo o campo, Dirceu nem se tocou:
- Olha, não tenho que marcar ninguém. Eu sou do Vasco e jogo na seleção brasileira. Se alguém tem de marcar, esse alguém é o Zenon.
Falou, tá falado: Zenon marcou um gol em cada tempo e, além de mandar o Vasco para o brejo, acabou com a pretensão de Dirceu.
Solto entre uma e outra intermediária, Zenon fez o que quis. Além dos gols, fez cinco lançamentos que Didi ou Gerson assinariam com orgulho; dividiu bolas, deu chutões para a lateral e formou, com Zé Carlos e Renato, o melhor meio-campo do Brasil no momento.
A 4 min. ele lançou Capitão e o ponta quase abriu a contagem. A 7, ele mesmo se encarregaria disso, com um chute que deixou Mazaropi sem qualquer possibilidade de ação.
- Tinhamos que marcar logo nos primeiros 15 minutos, para o Vasco ficar nervoso. Demos sorte.
Sorte mesmo deu o Guarani, que tinha Zenon no time - ele foi o suficiente para dominar Zanata e Dirceu nas ações de apoio e ainda obrigou Helinho a se manter no próprio campo, naquela de anjo da guarda da destruição.
Ao fim do jogo, ficava a lição: Dirceu é quem tem que marcar Zenon, o que sabe tudo de construção."
Também na mesma revista, em sua página 9, escreveu Lanning Elwis:
"MARACANÃ, PRONTO PARA A GUERRA, FOI APENAS UM RECREIO"
"Quando Zenon fez o primeiro, os vascaínos calaram. E ninguém quis saber de desforra."
"O Maracanã é mesmo o recreio dos bandeirantes, com esta frase o jornalista David Násser, um velho torcedor do Guarani, já na saída do estádio, definiu bem o comportamento das duas torcidas na arquibancada - e por ela ganhou apenas alguns gestos indecentes.
(...)
As torcidas do Vasco não chegaram a esquentar - logo aos 7, Zenon deu um nó na garganta de muito vascaíno. Mesmo assim o time carioca continuou a ser apoiado - o que muitos desistiram de fazer quando Zenon marcou o segundo gol. Naquela altura, como definia um vascaíno mais exaltado, restava à torcida um pífio consolo: O Vasco perde, mas perde com muita garra."
A ficha técnica do jogo:
Vasco 1 X 2 GUARANI
Campeonato Brasileiro 1978 - Semifinal
Local: Mário Filho (Maracanã) - Rio de Janeiro
Data: 06/08/78 (Domingo)
Horário: 17:00 h
Árbitro: Maurílio José Santiago (MG) Assistentes: Avilmar Gaspar dos Reis (MG) e Oscar Camilo da Silva (MG)
1o tempo: GUARANI 1 X 0 - Zenon aos 6 min.
Final: GUARANI 2 X 1 - Zenon (falta) aos 22 min. e Dirceu aos 37 min.
Renda: Cr$ 4.176.615,00
Público: 101.541 pagantes
VASCO Mazzaropi, Orlando, Geraldo, Gaúcho e Marco Antônio; Helinho, Paulinho (Ramon) e Zanata (Wilsinho); Guina, Roberto Dinamite e Dirceu.
Técnico: Orlando Fantoni.
GUARANI Neneca, Alexandre, Gomes, Mauro e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca (Adriano) e Bozó (Macedo).
Técnico: Carlos Alberto Silva.
Enquanto o Guarani passeava no Maracanã e a torcida bugrina festejava, faleciam naquele mesmo 06/08/78 o papa Paulo VI e o cantor Orlando Silva, conhecido como o "cantor das multidões", grande sucesso nos anos 30-40

Miranda dá autógrafo na concentração do Guarani no Rio, no Hotel Paineiras (Foto Rodolpho Machado, revista Placar no. 433, pág. 9)

Jogadores bugrinos fazem aquecimento no vestiário do Maracanã (Foto Rodolpho Machado, revista Placar no. 433, pág. 8)

Careca reza antes da partida (Foto Rodolpho Machado, revista Placar no. 433, pág. 9)

Dirceu segura Zé Carlos pelo braço (Foto Rodolpho Machado, revista Placar no. 433, pág. 7)

Zenon, Alexandre e Mauro comemoram o segundo gol do Guarani (Foto revista Placar no. 434, capa)

Zenon saúda a torcida bugrina no Maracanã (Foto Ignácio Ferreira, revista Placar no. 433, pág. 7)
Miss São Paulo é Guarani!!!
Guarani 4x2 D. de Caxias
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Matéria e Ficha Técnica
Fotos e Vídeo
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Local:Brinco de Ouro
Data: 23/11/2008
Hora: 19:00