TODOS QUEREM VER O BUGRE
Chegava o mês de agosto de 1978, e com ele as semifinais do Campeonato Brasileiro. A torcida bugrina estava em estado de graça, até parecia um sonho. O Bugre havia apresentado uma ascensão impressionante durante o mês de julho: em 9 jogos foram conquistadas 8 vitórias e 1 empate, marcados 18 gols e sofridos somente 2. E tudo isso na fase de afunilamento do campeonato!
Agora o bravo alvi-verde tinha pela frente o Vasco. Um obstáculo que para muitos parecia impossível de ser superado. Um famoso jornalista da época, Geraldo Bretas, declarou em alto e bom som na TV que a final do campeonato seria Vasco X Internacional. E eis o que publicou a revista Placar no. 432, pág. 7:
"Para vencer esta fase e enfrentar o ganhador do grupo de Palmeiras e Inter, o Guarani tem que tentar uma goleada nesta quarta-feira (...) Ou, então, conseguir uma vitória mais simples e uma outra vitória ou um empate no jogo do Maracanã. Proezas sabidamente das mais difíceis."
"A chance de conseguir uma vitória por dois ou mais gols - inteiramente dentro do plano dos campineiros - até que é possível, levando-se em conta as boas atuações de seu ataque, principalmente do ponta-direita Capitão e do centroavante Careca, e da boa fase vivida por Zenon; mas garantir um empate ou perder por uma contagem inferior, em pleno Rio de Janeiro e com todos sabendo - o Vasco e também o Guarani - tratar-se de um jogo decisivo, já fica bem mais difícil, quase no esquema das grandes zebras."
Mais adiante, na página 9, o articulista admite uma pequena possibilidade de classificação para o Guarani:
"E, sabendo jogar, fazendo como fez nos dois últimos jogos contra o Sport, ou ainda naquele em que enfrentou e goleou o Inter dentro do Beira-Rio, as chances do Guarani aumentam um pouco."
Pelo regulamento, o Guarani tinha direito de fazer o primeiro jogo em Campinas. Mas o Vasco começou a agitar, alegando que o estádio bugrino não oferecia segurança, pelo fato de a torcida ter invadido o campo no final do jogo contra o Sport para comemorar a classificação. Os cariocas queriam que o primeiro jogo fosse realizado no Morumbi. Pelos lados do Brinco de Ouro temia-se muito pela decisão da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), pois o seu presidente, o Almirante Heleno Nunes, era torcedor confesso do Vasco. Mas a entidade manteve o regulamento e o jogo foi marcado para o Brinco. Assim na quarta-feira, 2 de agosto de 1978, os dois times se encontraram no lotado Brinco de Ouro. A torcida bugrina confiava no time, tanto que 30 mil pessoas se espremeram para ver Zenon e cia. (lembrem-se de que não havia o tobogã). Mas temia-se muito pela arbitragem, em virtude da já citada relação entre o presidente da CBD e o Vasco.
Na semana do jogo surgiu um novo personagem no Brinco, dizendo que o Guarani ia ser campeão: o caboclo Guarantã. Justificando que na hora da decisão tudo é válido para incentivar psicologicamente os jogadores, o presidente bugrino Ricardo Chuffi contratou os serviços do caboclo, que fez um grande "trabalho" no vestiário vascaino antes da partida. Acontece que o massagista do Vasco era o Pai Santana, também ligado a essa modalidade de religião. Conta-se que quando o Vasco chegou ao Brinco e Pai Santana viu o "trabalho" feito no vestiário do seu time, ele ficou nervoso e proibiu a entrada dos jogadores no recinto enquanto ele não efetuasse a "limpeza" do local. Nâo há como afirmar que forças sobrenaturais tenham ajudado o Guarani na partida, mas é possível supor que o susto do Pai Santana tenha afetado o estado psicológico dos vascaínos mais suscetíveis.
No jogo, o Guarani foi a campo com apenas um desfalque: Gomes ainda não reunia condições de jogo e Silveira continuava em seu lugar. Já o Vasco vinha com dois desfalques: Guina e Roberto Dinamite, por terem recebido o cartão vermelho e o terceiro amarelo, respectivamente, no jogo das quartas-de-final contra o Grêmio. Por estar desfalcado de dois importantes atacantes, esperava-se que o Vasco viesse jogar pelo empate, o que lhe seria vantajoso, já que o regulamento lhe dava a vantagem de jogar por dois resultados iguais. Mas o artilheiro do campeonato, Paulinho, estava em campo.
O jogo começou nervoso, com o Guarani precisando vencer para reverter a vantagem do Vasco e jogar com tranqüilidade no Maracanã. O Vasco demonstrava que realmente ficaria satisfeito com um empate. Ficou mais nervoso ainda quando alguém atirou um rojão no banco do Vasco, que na época ficava ao lado do túnel do visitante e não tinha cobertura de proteção, fazendo com que técnico e reservas invadissem o campo e provocando a interrupção da partida. Os repórteres também invadiram o gramado e o jogo ficou interrompido por vários minutos. Quando o árbitro reiniciou o jogo ainda havia um repórter dentro do campo, que surpreendido acabou correndo para dentro do gol do Vasco. A paralisação não foi suficiente para esfriar o Guarani, que continuou atacando e abriu a contagem já nos acrécimos do primeiro tempo, num gol contra do lateral Orlando, após uma cobrança de escanteio. No segundo tempo o Guarani voltou mais tranqüilo, enquanto o Vasco tentava empatar. Antes dos 10 minutos, num rápido contra ataque, Renato fez o segundo gol bugrino, abrindo uma boa vantagem para o jogo da volta. O Vasco não teve forças para diminuir e jogadas ríspidas ocorreram de lado a lado, sendo expulsos Fernando do Vasco e Edson do Guarani.
Terminada a partida, o pensamento da torcida já se voltou para a organização das caravanas para o jogo do Maracanã, onde o Guarani poderia perder por até um gol de diferença.
A ficha da partida:
GUARANI 2 X 0 Vasco
Campeonato Brasileiro - Semifinal - 1o. jogo
Local: Brinco de Ouro da Princesa - Campinas
Data: 02/08/1978
Horário: 21:00 h
Árbitro: Manoel Amaro de Lima (PE) Auxiliares: Armindo Tavares do Pinho (PE) e Dirceu Arruda (PE)
1º tempo: GUARANI 1 X 0 - Orlando contra aos 47 min.
Final: GUARANI 2 X 0 - Renato aos 9 min.
Renda: Cr$ 1.068.730,00 Público: 30.092 (27.965 pagantes e 2.127 menores)
Cartões Vermelhos: Fernando aos 37 min. e Edson aos 40 min. do 2º tempo.
GUARANI Neneca, Mauro, Silveira (Alexandre), Edson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó (Manguinha).
Técnico: Carlos Alberto Silva.
VASCO Mazzaropi, Orlando, Fernando, Gaúcho e Marco Antônio; Helinho, Paulo Roberto e Zanata (Zandonaide); Wilsinho (Paulo César), Paulinho e Dirceu.
Técnico: Orlando Fantoni.
No outro jogo das semifinais, realizado na quinta, 03/08, no Morumbi, o Palmeiras venceu o Internacional por 2 X 0.

Renato observa disputa entre Zé Carlos e Helinho (Foto José Pinto, revista Placar no. 433, pág. 20)

Capitão entre 3 vascaínos (Foto revista Placar no. 434, pág. 20)

Capitão disputa bola com jogador do Vasco (Foto revista Placar no. 433, capa)
Miss São Paulo é Guarani!!!
Guarani 4x2 D. de Caxias
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Matéria e Ficha Técnica
Fotos e Vídeo
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Local:Brinco de Ouro
Data: 23/11/2008
Hora: 19:00