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Guarani

Campeão Brasileiro 1978

A MÃO NA TAÇA

A semana de 7 de agosto de 1978 se iniciou com toda Campinas em festa (bem... nem toda...) Pela ascensão apresentada pelo time do Guarani nos últimos 30 dias ninguém acreditava que o título fosse escapar do Brinco de Ouro, a não ser que forças extra-campo entrassem em ação. E bem que tentaram. O regulamento do campeonato determinava que a decisão seria em duas partidas, com a segunda sendo realizada na casa do time que tivesse feito mais pontos ao longo do campeonato, no caso, o Guarani. A comissão de arbitragem também tinha o costume de escalar árbitros neutros (de um outro estado) em confrontos entre times do mesmo estado. Mas o presidente da FPF, Alfredo Metidieri, ex-presidente do São Bento de Sorocaba, tentou levar as duas partidas para o Morumbi e escalar árbitros da FPF na decisão, alegando que era uma "festa paulista". Logo ele, que tinha sido eleito em 1976 por um movimento de clubes do interior que queriam por fim aos favorecimentos aos times da capital. Mas o presidente da CBD, almirante Heleno Nunes, fez valer o regulamento, marcando a segunda partida para Campinas e garantindo a escalação de árbitros neutros nas duas partidas. Para que o segundo jogo fosse realizado no Brinco de Ouro, exigiu-se que a lotação do estádio fosse limitada a 28 mil pessoas por motivo de segurança e que os ingressos tivessem o seu preço dobrado.

A primeira partida foi marcada para a quinta-feira, 10 de agosto de 1978, no Morumbi. Com a definição das datas, começaram os preparativos para o deslocamento da torcida bugrina até São Paulo. Os torcedores uniformizados sairiam do Brinco de Ouro, os não uniformizados da Av. Moraes Sales. Os ônibus deveriam começar a sair por volta das 16 horas. Muitas empresas e estabelecimentos comerciais liberaram seus funcionários mais cedo para que pudessem ir ao Morumbi. Tudo parecia estar correndo bem, mas faltou ônibus na cidade. Após a saída de alguns ônibus, houve um longo período em que não apareceu mais nenhum para pegar os torcedores. Só depois das 18:30 h, quando os ônibus que fazem fretamento já tinham levado para casa os funcionários das empresas da região é que começaram a ser liberados mais ônibus para a torcida.

A caravana acabou saindo muito tarde para um jogo de decisão. Para complicar ainda mais, a Rodovia dos Bandeirantes ainda não estava pronta, portanto a Anhanguera era o único caminho para a Capital. Também estava sendo construído o complexo conhecido como cebolão, que liga as marginais do Tietê, Pinheiros e a Rodovia Castelo Branco, e a região estava cheia de desvios e com um trânsito muito complicado. Além de tudo isso, o congestionamento nos arredores do Morumbi era enorme. Resultado: a caravana chegou em cima da hora. Quando o meu ônibus chegou ao Morumbi, a arquibancada (anel superior) do Morumbi já estava lotada, e a polícia estava tentando impedir a entrada de mais torcedores naquele setor, chegando mesmo a jogar gás lacrimogênio no olho de quem tentava furar o bloqueio. Os bugrinos que chegaram atrasados foram para a geral atrás do gol, no anel inferior. Eu consegui entrar no anel superior com o ingresso no bolso, mas não consegui ver o primeiro tempo, tal era a lotação da parte reservada à torcida do Guarani. Pelo barulho e comentários tive a impressão de que o Palmeiras teria jogado melhor. Fiquei também sabendo que Zenon havia recebido o terceiro cartão amarelo e estava suspenso para a partida decisiva em Campinas.

Sobre o primeiro tempo da partida, eis o que publicou o jornal Diário do Povo de 11/08/78:

"Na etapa inicial, o time bugrino não conseguiu se livrar da boa marcação feita em seu meio campo e pareceu amedrontado, principalmente pelos cartões amarelos exibidos por Arnaldo César Coelho."

"Até Zenon, após receber um cartão, aos 28 minutos (que o tirou da peleja final, pois foi o terceiro da primeira série) se apagou, ficando inibido e pouco realizando."

"Foi o Palmeiras que, indiscutivelmente, teve as maiores chances de marcar no primeiro tempo, como aos 24 minutos, quando Jair Gonçalves cabeceou para o gol, Neneca ficou batido e a bola bateu no travessão. Na recarga, Jorge Mendonça tocou para o gol e o arqueiro bugrino ficou vencido, mais uma vez, mas Mauro apareceu para salvar em cima da risca."

"Outra boa chance do Palmeiras aconteceu aos 39 minutos, quando, depois de um levantamento para a área bugrina, numa cobrança de falta, Neneca soltou nos pés de Toninho, que bateu para o canto direito. O arqueiro bugrino ficou vencido, mais uma vez, mas Mauro apareceu junto à trave direita e salvou de cabeça."

"Mas, mesmo não jogando um futebol de acordo com as suas possibilidades, o Guarani, nos contra-ataques, também chegou a ameaçar Leão."

"Aos 9 minutos, Mauro desceu pela lateral e lançou Capitão, que entrou pela linha de fundo e deu atrás para Careca, que virou rápido para o gol, mas Leão estava bem colocado e defendeu."

"Aos 19 minutos, Renato saiu desde seu campo na corrida e passou por três jogadores, sendo derrubado perto da área, mas Arnaldo César Coelho não marcou a falta."

"Aos 28 minutos, o jogo começou a ficar violento, com o árbitro dando cartão amarelo para Zenon (o terceiro) e Mauro. Antes ele já havia dado para Edson."

"Aos 30 minutos, Renato teve uma boa chance, quando lançado por Zé Carlos, ganhou na corrida de Alfredo, mas bateu em cima de Leão."

"Outra boa chance do Guarani aconteceu aos 32 minutos, quando Zé Carlos lançou Careca, que bateu forte para o gol, exigindo uma grande defesa de Leão, espalmando para escanteio."

"Antes do fim do primeiro tempo, Arnaldo César Coelho distribuiu mais dois cartões amarelos para Toninho, que deu uma entrada sem bola em Edson e Jorge Mendonça, que reclamou de uma falta."

"Em cima da hora, num escanteio pela esquerda, Careca desviou de cabeça para o gol, mas Leão defendeu, bem colocado."

No intervalo consegui arrumar um lugar na arquibancada, aproveitando que muita gente foi aos bares e banheiros. No segundo tempo o GUARANI equilibrou o jogo, e aos 26 min., quando tudo parecia se encaminhar para um 0 X 0, o goleiro palmeirense Leão, já com a bola dominada, deu um soco na nuca de Careca dentro da área. O árbitro sem hesitar marcou pênalti e mostrou cartão vermelho para o goleiro. Seguiu-se uma grande confusão, com os adversários não se conformando com a marcação e partindo para cima do árbitro. Polícia, repórteres e penetras entraram em campo. O goleiro não queria deixar o gramado e acabou levando um empurrão de um policial. Antes de sair Leão ainda arrumou briga com um repórter da Radio Brasil de Campinas. Serenados os ânimos, o jogador Escurinho foi para o gol, pois o Palmeiras já tinha feito as substituições regulamentares. Aos 31 min. Zenon cobrou o pênalti e fez 1 X 0 para o GUARANI, para explosão da grande torcida bugrina presente, reforçada por torcedores das demais equipes da capital. Nesse momento foi possível ver a quantidade de bugrinos presente no estádio: cerca de 25 mil, ocupando 1/4 da arquibancada (do prolongamento da linha divisória do meio campo até atrás de um dos gols), setores das numeradas e a geral térrea atrás de um dos gols. Embora não existam dados a respeito, esta foi provavelmente a segunda maior caravana realizada no Brasil, perdendo somente para a semifinal do Brasileiro de 1976 (Fluminense X Corinthians) quando os paulistas levaram cerca de 70 mil pessoas ao Maracanã.
No tempo que restava de jogo o Palmeiras tratou de se defender para evitar mais gols do GUARANI, que tentava liquidar a fatura. Mas ficou mesmo no 1 X 0.

Eis como o jornal Diário do Povo descreveu o segundo tempo da partida:

"Bem orientado, o Guarani voltou muito mais agressivo e logo aos 3 minutos, Zenon desceu pela meia-direita e bateu forte, para Leão rebater. Mas, ninguém aproveitou o rebote."

"As coisas começaram a se complicar para o Palmeiras, quando Marinho Perez, que já entrara sem perfeitas condições, pediu para sair. Jorge Vieira foi obrigado ea mexer em toda a defesa, tirando Jair Gonçalves que vinha bem no meio de campo e colocando Zé Mário, inativo há mais de 40 dias."

"Aos 8 minutos, Renato chutou para o gol e Leão rebateu, caindo a bola para Bozó, que, sem ângulo, deu para trás, mas Zenon não conseguiu chegar a tempo."

"Aos 10 minutos, numa saída de bola errada, Leão acabou dando mal para Jair Gonçalves e a bola caiu com Careca, que deu para Bozó, mas o tiro do ponteiro foi desviado por Rosemiro."

"Pouco depois, aos 25 minutos, aconteceu o lance que acabaria definindo o resultado, quando Leão, ao ser acossado por Careca, numa bola levantada para a grande área, deu um soco no comandante bugrino. Arnaldo César Coelho (que já havia dado cartão amarelo para o arqueiro), expulsou-o de campo e marcou penal. A peleja ficou paralisada 4 minutos e com Escurinho improvisado no gol, Zenon cobrou o penal, colocando a bola no canto direito, num chute rasteiro."

"Nada mais restava ao Palmeiras, completamente desorientado, que aceitar o resultado."

A torcida bugrina deixou o Morumbi gritando "é campeão". A volta foi longa. Com tantos ônibus, demorou muito até que todos encontrassem o seu. Chegamos em Campinas às 4:00 horas e encontramos os bugrinos que não foram a S. Paulo fazendo carnaval no Largo do Rosário. Mas os que chegavam estavam muito cansados para a festa, além do que a sexta-feira seria dia de trabalho. Restava ir à pé para casa e começar a se preparar para o jogo de domingo.

Sobre a festa no Largo do Rosário, escreveu o jornal Diário do Povo de 11/08/78:

"Torcida comemora título"

"Às 23:20 começavam a estourar no Largo do Rosário os primeiros rojões da vitória do Guarani." (...)

"Dez minutos depois, às 23:30, o Largo do Rosário havia se transformado num divertido pandemônio, com todo mundo se abraçando, pulando como se o Guarani já tivesse conseguido levar no peito e na raça as duas partidas deste final. Ninguém se importava se Zenon iria ou não jogar no domingo." (...)

"Num Fiat branco, um som diferente dos rojões e das buzinas que enchiam o centro: um conjunto improvisado dentro do carro tocava "Brasileirinho", trazendo uma alegria diferente à festa."

"Sílvio Bertolini, no trompete, José Batista Barreto, no clarinete e José "Paraíba" Araújo, no acordeon, formaram o melhor da comemoração de ontem, logo depois de estacionarem e descerem para continuar o show."

"Com um repertório formado por chorinhos, músicas de carnaval, além do Hino do Guarani de do Periquitinho Verde, este executado em tom jocoso e irônico, eles conseguiram um público que aplaudia ao final de cada música, com entusiasmo."
(...)

"E, eles seguiram noite adentro, fazendo uma comemoração que, bem poucas vezes, o Largo do Rosário e a avenida Francisco Glicério já viram depois de vitórias no futebol, com a de ontem. com disse Eliel Ramos Costa, angolano: Nós, bugrinos, somos algo à parte."

A ficha técnica da partida:

Palmeiras 0 X 1 GUARANI
Campeonato Brasileiro (Copa Brasil) - Final - 1a. partida
Local: Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi) - S. Paulo
Árbitro: Arnaldo César Coelho (RJ) Auxiliares: Júlio César Cocenza (RJ) e Amauri Ponciano de Aguiar (RJ)
1º tempo: 0 X 0.
Final: GUARANI 1 X 0 - ZENON (pênalti) aos 31 min.
Renda: Cr$ 4.969.690,00
Público: 104.526 (99.829 pagantes e 4.697 menores)
Cartão vermelho: Leão aos 26 min. do 2º tempo.

PALMEIRAS Leão, Rosemiro, Marinho (Zé Mário), Alfredo e Pedrinho; Jair Gonçalves, Jorge Mendonça e Toninho Vanusa; Sílvio (Escurinho), Toninho e Nei. Técnico: Jorge Vieira.

GUARANI NENECA, MAURO, GOMES, EDSON E MIRANDA; ZÉ CARLOS, RENATO (MANGUINHA) E ZENON; CAPITÃO, CARECA E BOZÓ (ADRIANO). TÉCNICO: CARLOS ALBERTO SILVA.


O time do Guarani embarcando para São Paulo (foto Diário do Povo de 11/08/78)


Neneca segura a bola e acalma o jogo (foto Rodolpho Machado, revista Placar no. 434, pág. 9)


Jogadores bugrinos comemoram o gol de Zenon (foto Ronaldo Kotscho, revista Placar no. 434, pág. 4, legenda: "A alegria, depois do gol de Zenon contra o Palmeiras, soava como festa pela conquista do título. Afinal, o "pequeno" Guarani, em pleno Morumbi, não tomou conhecimento das tradições do Palmeiras e jogou com a certeza que caracteriza os times campeões, a mesma que antes era marca registrada do Palmeiras.")


Torcedores comemorando a vitória no Largo do Rosário (foto Diário do Povo de 11/08/78)

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